quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Um dia a mais é mais um dia de Vida


Estou velha. Não há outra forma de o dizer.
Ou talvez haja, estou usada.

Sou velha porque já fui mais nova.
Tenho mais de setenta. Parei de os contar nessa data. Mais dia, menos dia.
Tenho diabetes,
Sofro (da doença) do esquecimento.

Estou deitado numa cama, de onde já quase não saiu.
Estou quase surda, quase cega.
Mas sinto ainda, penso ainda.

Por um fio de luz que me resta, no olho que foi castanho sedutor, vejo um tubo que me enfiarem no nariz. Sem que desse um ai, porque, na verdade, também quase não falo.
E nem sempre tem sentido, porque mastigo mal as palavras ou me deixo arrastar nos dilúvios da mente, momentos em que misturo de forma errada as vinte e tantas letras desta língua e, ás vezes, lhes junto mais duas ou três.
E quando a fala se ordena, de forma a fazer sentido, aqueles que me ouvem nada percebem.
Partilham este meu tempo, outros ausentes, aguardavam a sua vez de nascer, assim como noutros tempos, outros virão, e eu não estarei presente.

Sei que estimam, que me respeitam, mas sei também que lhes peso.
Logo agora que a balança se sente feliz, sob os frágeis, poucos, ossos que faltam reparar.
Leio o que segredam, comocionados, “Isto não é vida; Mais vale morrer”.
E, na verdade, vida é.
É a minha vida, o que resta dela.
Não os condeno, também já disse isso, quando não era eu a deitada.

“Um dia a mais, é mais um dia de vida”, diz o Anjo que me guarda.
O Anjo, que me força a somar outros dias àqueles que já tenho.
Que contínua a amar-me, mesmo depois terem desertado as forças e as ilusões, e que se recusa a perder-me.
Que me dá aquela sopa, que eu adoro, fazendo de conta que eu ainda a saboreio, como se o tubo que agora a transporta, entre o nariz e o estômago, fosse a colher com que partimos o bolo de noiva.
Quem sabe se será a última noite.
Eu sei se quero que seja.
Queria ser eu a decidir.
Uma derradeira decisão.

Já disse, fui mais nova.
Lembro-me de pensar na idade, depois da terceira.
Como seria confortável olhar para trás e dizer, com orgulho,”tantos anos”.
Pelo menos vivi. Mais, vivi muito. Vivi tudo, o que o mundo me pode dar.
Salve-se a Alma que apenas o corpo tem prazo de validade.

Convicta, inocente, acreditava que me lembraria de outros antes partidos e dizer graças, a Deus.
Sim a Deus, porque, diz o mestre, se existe momento para as dar é perto do fim, não vá o diabo tecê-las, como se o Homem só abrisse a porta (a do céu, pois claro) depois de sussurramos a senha: “Graças a Deus”.

O conforto de ainda estar. Como o do guerreiro que descansa, quando poucos voltaram da batalha. Como o soldado que se reforma por limite de idade.
A melancolia da sobrevivência, esquecida do instinto. “…Um dia a mais…”.

Enganei-me. Como me tenho enganado tantas vezes nesta vida.
Não há conforto.
Apenas medo, cansaço, dor, esquecimento, e, às vezes, como quase sempre, um lastro de ilusão.
A repetida, triste, ansiosa, pergunta. “Quanto tempo tem o tempo para me dar…?”.
Sempre um dia de cada vez(“Ainda queria ver a minha neta”).

Confesso, ainda sonho (quando não tenho pesadelos, obsessões, delírios, e outras dores mais mundanas).
Aprendi a controlar o sonho. Na minha vida e no meu sono.
Quando adormeço, nos infinitos segundos que desde o acordar esperam pelo fechar dos olhos, sou eu quem apago aquele pouco raio de claridade que ainda me resta (como se este fosse a luz ao fundo do túnel, que, dizem, anuncia a vida seguinte).

Sei os truques do sono.
Sonho o que quero.
Revejo a minha vida.
Espero o momento da decisão.
Repito, deve ser minha.

ADORMEÇO…
NÃO ACORDO.

(Dedicado a minha vozinha, vovó Belinha)

4 comentários:

Xana disse...

A minha avó já se foi para o sono eterno.
Lucida até ao ultimo dia , era um amor de pessoa, sempre preocupada para não dar trabalho a ninguém , e dizia muitas vezes..
" Velhos são os trapos!"
Um beijo para todas as avós,
e já agora para ti também! ^^

Cris Rubi disse...

Minha vozinha tbm, a um mês apenas.
Deixou de sofrer, mas sempre dizia: "um dia amais é mais um dia de vida!"
saudades eternas

UIFPW08 disse...

ebscipmui nonni pezzi den ns, cuore.
avós peças do nosso coração

Cris Rubi disse...

sì lo sono,
sono pezzi del nostro cuore ♥